top of page
Buscar

Comece por aquilo que seja mais fácil

  • cleypsicologia
  • 10 de set. de 2024
  • 4 min de leitura

Cleyciane A. Faria*


Parecia um jovem adulto, usava roupa casual, estava bem estiloso. Aparentava timidez, pelo leve rubor que apareceu em sua face assim que eu disse seu nome e o chamei para me acompanhar. O atendimento começou com um aperto de mão e um "oi" ainda na recepção. Ao entrar na sala, o convidei a se sentar e também me sentei para começarmos a conversar, houve uma reclamação minha sobre o calor e o tempo quente, o que ele prontamente concordou e assim depois de conferir nome completo e idade, eu disse a frase mais esperada para aquele momento: "Em que posso te ajudar?". Ele suspirou forte, colocou a mão no queixo e depois alisou o cabelo para trás e disse: "eu não sei!". Então com um pequeno sorriso, acrescentei: "comece por aquilo que seja mais fácil!" Ele então começou a falar do estresse no trabalho, emendou com os problemas conjugais e fomos conversando até o final da sessão em que fiz um resumo das minhas primeiras impressões, anotadas no prontuário:


Adulto Jovem, 32 anos, casado, sem filhos. Apresenta queixas relacionadas ao trabalho, principalmente a constante insatisfação com a profissão de engenheiro químico. Sente-se sobrecarregado e possui alguns sintomas que podem ser condizentes com Episódios de Pânico, iniciados há dois meses. Desejo por fazer outra faculdade, talvez Direito ou Odontologia e ir trabalhar como autônomo pois queixa-se da vida corporativa. O casamento está bem, mas tem medo de sobrecarregar a esposa, que é professora. Busca com a terapia aprender a tornar as coisas mais claras, começar a pensar melhor, não surtar e melhorar. (Caso fictício).


A vida não é fácil para quem chega à terapia. É um misto de fragilidade, medo e muitos esperam a má notícia de que seu caso não tem solução. Chegamos ao consultório já esperando as más notícias pois a vida está lotada delas todos os dias. Não temos lado tranquilo por onde podemos nos ancorar nas nossas tempestades internas. O texto de hoje é para falar de começos das pessoas que buscam o consultório para atendimento.

O respeito, antes de tudo, é muito importante pois eu ainda não sei, mas a prática me diz que o caminho que cada pessoa percorreu até chegar ali é imenso e tortuoso. No Brasil, buscamos ajuda quando não demos conta sozinhos. Primeiro a gente tenta de várias formas: conversamos com algumas pessoas, vemos vídeos, pesquisamos na internet, procuramos uma religião, vamos em outros profissionais, para só depois chegarmos ao Psicólogo. Há um medo com relação a nós e entendo, pois todos temos segredos demais que envergonham a nós mesmos. Achamos que nossas dificuldades, nossas auto ofensas, nossos medos são apenas nossos e que mais ninguém sente as "asneiras" que sentimos.

O primeiro passo, na terapia, é destrancar a porta e convidar o terapeuta para entrar. A casa do outro é terreno sagrado, não deve ser indevidamente violada, não deve ser arrombada e os cômodos não podem ser adentrados sem permissão. O bom psicólogo é aquele que inspeciona, sendo convidado a isso. Ele olha e pergunta sobre os sentidos e significados daquilo que temos; ele não nos julga, pois nossas coisas são aquilo que podemos ter naquele momento. E ao olhar ele pergunta sobre o que você tem, o que quer manter ou quer retirar dessa sua casa interna. Ele te ajuda a jogar no lixo crenças limitantes, pensamentos ruins e sentimentos angustiantes. Ele te ajuda a ajeitar um pouco as coisas e vai te auxiliando na reconfiguração dos espaços internos.

O psicólogo te faz revisitar lugares bons e ruins e te permite ressignificar momentos e situações. O psicólogo te faz imaginar-se como uma foto em um quadro, ligando-se com linha a outras fotos, das pessoas que te cercam, te ajudando a ver de verdade quem está perto e quem está longe, quem te faz bem e quem não te acrescenta em nada na vida. Algumas linhas são arrebentadas, outras são cortadas e outras são construídas ou unidas novamente, mas tudo é previamente bem conversado.

O psicólogo é alguém com quem você passa um tempo semanal e que às vezes se parece com apresentadores de programas de organização e reformas de casas: ele te faz revisitar coisas, te permite decidir entre o que fica e o que sai, pergunta tudo sobre seu novo espaço interno, te leva a imaginar como quer e como sempre há problemas no caminho pois os reparos são necessários na sua casa interna para suportar o seu EU novo.

Na terapia de verdade, a gente mexe nas coisas que carregamos conosco. Tudo o que é material e palpável, é fácil de se jogar fora e vê-lo lá dentro da lata do lixo; já os pensamentos e as crenças negativas podem ser manchas difíceis, que só saem aos poucos e com o tempo e esforço.

Eu desejo com esse texto que você tivesse uma breve descrição de como funciona o processo. Tentei usar algumas analogias para te explicar o que acontece no começo e te dei um pequeno resumo do que esperar. Tudo para sanar seus medos e quem sabe nutrir sua coragem. Mas assim como não gostamos de spoilers dos filmes que assistimos, é claro que cada história é única e sua história só será construída na terapia se você for.

Há diferentes tipos de psicólogos, te dou algumas dicas de como escolher um que seja ideal para você:

  1. Tente encontrar informações sobre alguns profissionais, seja por indicação ou pesquisa na internet;

  2. Agende uma primeira consulta e avalie ao final como você se sentiu com essa pessoa ou se ficou com vontade de voltar ou não;

  3. Se não se sentiu confortável, agende sessões com outros profissionais para ajudar na sua decisão;

  4. Inicie seus atendimentos com alguém que te inspirou mais confiança;

  5. Reavalie de tempos em tempos o seu próprio progresso na terapia: você tem melhorado, tem percebido mudanças ou sente que não saiu do lugar? às vezes inicialmente gostamos do profissional, mas depois ficamos cada vez mais "imunes" ou mesmo resistentes às intervenções, dai é importante reavaliar a continuidade da terapia com aquele profissional ou não.


Outros aspectos podem ser também avaliados, mas não quero te prender por aqui. Te encontro aqui no Blog do alimentaramente.com.br em um próximo texto para te abastecer e nutrir sua mente com informações relevantes para o seu desenvolvimento pessoal. Até o próximo.


Abraço da Cley!


*Cleyciane Faria é psicóloga, nutricionista, mestre em psicologia e professora universitária entre outras coisas...


 
 
 

Comentários


bottom of page